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Os relatos de três peregrinos em busca da superação e da espiritualidade

 Por: Jefferson Cruz

 

Superação, “chamado” ou quem sabe a busca pela espiritualidade. Nós, seres humanos, temos a necessidade de encontrar respostas para os nossos questionamentos e, para uma maior compreensão da vida, muitos brasileiros têm cruzado o oceano com o objetivo de se conectar com esse “eu maior”.

A cidade escolhida é Santiago de Compostela, na Espanha. Hoje, segundo dados divulgados pela Catedral de Compostela, o Brasil é considerado o décimo país que mais envia turistas para a rota milenar que cruza a Espanha. Em 2018, mais de 5.600 fizeram o caminho, enquanto que em 2008, o número foi de 1.365.

Montanhas de Santiago de Compostela / Foto: Adriano Jailton.

No ano passado, um dos brasileiros que participou da peregrinação foi o enfermeiro Adriano Jailton da Silva. O motivo para a caminhada era superar a frustração e resgatar a si mesmo. “Por sonhar em realizar essa peregrinação e não poder cumprir, havia um vazio e frustração. Havia algo que pedia para ir até lá. Difícil definir, mas algo me chamava para realizar o caminho. Eu estava cada vez mais introvertido, desgastado emocionalmente e sentia uma necessidade de me resgatar. Assim como a seta que guia o peregrino no percurso, o meu resgate acenava para o Caminho de Santiago de Compostela. Precisava muito ir. Algo dizia: se você for, tudo vai mudar. Se fosse para definir um motivo para realizar esse caminho, a palavra seria “resgate”.

Adriano Jailton e as duas Marias.

A fonoaudióloga Fernanda Garcia Prado também passou por uma situação delicada com a saúde e, semelhante ao Silva decidiu se entregar de corpo e alma para se conhecer melhor. “Eu estava em uma fase meio que desestabilizada psicologicamente e o caminho começou a “trabalhar em mim”, antes mesmo da minha ida. Eu estava resistente a me tratar com medicações, e percebi a necessidade de fazer isso antes da viagem, por estar tão longe de casa, e sendo a única responsável por mim, eu não tive um preparo espiritual. Fui “entregue” para viver o que viesse”.

A fonoaudióloga Fernanda, em 2018 / Foto: Fernanda Garcia Prado.

 

Foto: Fernanda Garcia Prado.

Já Mário Tadeu de Lazari, 48 anos, tinha como objetivo à busca da espiritualidade. “Eu queria ir em busca principalmente do lado espiritual, mas também trabalhar o lado do desapego e pela própria aventura”.

Ao aventurar-se nessa jornada, Lazari decidiu percorrer o caminho do francês, conhecido como o percurso original. O trajeto inicial começou em Saint-Jean-Pied-de-Port, na França, local com maior concentração de peregrinos e o percurso foi de aproximadamente 800 km até chegar na Catedral.

Foto: Mário Tadeu.

Para Lazari, o percurso não foi problema, pois estava preparado fisicamente. “Como sou corredor de rua há 30 anos, a parte de condicionamento físico foi fácil. A espiritual foi um pouco mais difícil, pois um dos motivos de fazer o caminho era justamente encontrar o meu eu espiritual”.

Já Adriano Jailton da Silva foi mais precavido e diz que precisou emagrecer. “Reduzi a quantidade alimentos para diminuir um pouco do peso. Estava um pouco acima do peso, mas via que deveria me acostumar com pequenas quantidades diárias de alimento. Não tinha prática diária para realizar grandes percursos. Para ir a padaria, eu ía de carro. Então, comecei a realizar grandes percursos para começar a perceber minhas dificuldades, tempo por quilômetro, o que poderia consumir e quanto iria gastar de consumação de alimentação e de bebida. Nesse preparo, já iniciei o uso de botas, mochila com peso dentro e bastões. Esses mesmo que me acompanharam durante o caminho. Tinha escutado que seria para amaciar e acostumar com esses acessórios. Parece besteira utilizar o bastão mas eles ajudaram bastante no percurso. Por muitas vezes estabilizou nos momentos de cansaço e foi minha companhia em momentos de silêncio. Ditava meu ritmo na caminhada”.

Peregrinos no percurso de Santiago de Compostela / Foto: Adriano Jailton.

 

A preocupação de Fernanda Garcia Prado era com a alimentação. “Sou magra e estava preocupada com perda de peso. Comia muito carboidrato, doces, e pelo menos uma proteína por dia, a proteína geralmente era algum salgado que continha atum”.

Ao se lembrar da viagem e ter percorrido os 800 km, de Saint Jean até Santiago, Fernanda afirma que viveu todos os sentimentos possíveis durante a caminhada. “Chorei muito, sorri muito, fiz amigos, sofri de saudade de cada um deles. Caminhei tudo, me superei. Cozinhei. Me desentendi com nativos que muitas vezes eram grosseiros. Hoje em dia não acho que preciso voltar. Não há uma sensação de que ficou faltando algo. Vivi tudo e muito intensamente.”

Mário Tadeu acredita que há algo místico em fazer o caminho. “Com certeza a gente sente por todo caminho uma áurea diferente, é algo que só quem faz sabe explicar, por isso dizemos uma vez peregrino sempre peregrino”.

Foto: Mário Tadeu de Lazari

O enfermeiro Adriano Jailton também acredita no misticismo do local. “Uma das questões interessantes foi da comunicação. Desejar ao outro “buen camino”, por mais que se esbarre várias vezes ao dia, é o máximo. Por não falar fluente o inglês, havia uma comunicação e entendimento entre outros peregrinos. Acredito que a mística do caminho também facilita essa questão. Existiam dias que realizei 25 km e outros de 40 km. Acredito que a energia do Caminho é real e única. Embora ao fim do dia estivesse cansado, dolorido e com os pés calejados, na manhã seguinte, em meio ao frio de 4ºC, às 6 horas da manhã, após tomar uma xícara de café com pão duro e jamon, estava disposto a seguir em frente. A chuva, o vento, o frio, a sede e os calos não me impediram de prosseguir. Esse místico que nos alimenta a chegar até Santiago de Compostela e agradecer a dádiva de poder realizar esse Caminho de Luz. Se pudesse, iria todo ano. Quem faz, sente a necessidade de voltar”.

Ao ser questionada sobre a possibilidade de retornar ao Caminho de Santiago de Compostela, Fernanda Garcia Prado afirma que hoje não precisa voltar, “mas posso ter a sensação de “ser chamada” novamente. E se isso acontecer, não medirei esforços, porque foi a maior experiência da minha vida até então”.

Ruínas do Convento de Santo Antônio / Foto: Adriano Jailton.

Já Mário Tadeu de Lazari, diz que voltará em breve. “Com certeza pretendo voltar em 2022 e refazer o caminho francês”.

 

O percurso

Os Caminhos de Santiago da Compostela já são uma tradição desde o século IX e não há um percurso específico. Os peregrinos têm como objetivo percorrer no mínimo 100 quilômetros a cavalo ou a pé e, em caso de bicicleta, no mínimo 300.

Ao chegar na Catedral, os peregrinos veneram as relíquias do apóstolo Santiago Maior, cujo sepulcro encontra-se no local e, ao cumprirem o percurso recebem a compostelana, um certificado emitido a quem completou o caminho.